Olá, filho.
É a primeira vez que escrevo por aqui. Isso não significa que eu te ame menos que seu pai. Aliás, já falando dele… acredite: seu pai é o melhor pai do mundo, e eu tenho muita sorte de ter escolhido ele para caminhar comigo nessa vida.
Uma bronquiolite te tirou do meu seio. O lugar onde você deveria estar foi ocupado por um tubo que chegou até o seu pulmão. Durante muito tempo eu tive esperança de que esse tubo daria lugar novamente ao meu seio. Mas depois de cinco meses no hospital, eu já não consegui mais manter o meu leite.
Então precisei encontrar silêncio. Muito silêncio. E muita oração. Para tentar me reconectar com você. Muitas vezes eu falhei. Pratos se quebraram (expressão brasileira quando fala sobre a vida e equilibrar os pratos)
Filho, hoje toda a minha energia é para te escutar e te observar. Escutar tudo o que você tem para dizer através do seu comportamento, do seu olhar, dos seus pequenos sinais.
No meio de um milhão de conselhos de profissionais, de familiares, do barulho do trânsito, atrás de uma janela com grades, sob um céu cinza sem estrelas… tentar te escutar no meio de todo esse caos é um grande desafio.
No meio de tudo isso, eu não sei exatamente o que o Divino queria nos mostrar. Mas um dia aconteceu algo inesperado: o piso inteiro daquele apartamento onde eu me sentia presa simplesmente quebrou. Justamente no único espaço onde você podia brincar.
E, segundo os médicos, aquele lugar já não era aconselhável para você por causa da doença com a qual você foi diagnosticado. Eu não digo que você tem essa doença. Eu prefiro acreditar em milagres. Eu quero que você seja testemunha de que seus pulmões podem se regenerar.
Sua mãe sempre foi sonhadora.
Sonhadora ao ponto de acreditar que um dia você voltaria para a nossa casa. A casa onde eu sempre te imaginei brincando com os sapinhos, com as lagartixas, correndo pelo quintal, sujando as mãos de terra, comendo grama, pegando formigas, olhando para o nosso céu cheio de estrelas, respirando ar puro, pertinho da praia.
Eu me imaginava cozinhando olhando para ti enquanto você brincava livre.
E esse sonho, que parecia quase impossível… aconteceu.
Viemos para Barrinha, o melhor lugar do mundo.
Aqui as pessoas olham nos olhos. As pessoas dão bom dia na rua. Aqui ainda existe o cuidado uns com os outros.
Tem o mercadinho da vila, tem o postinho de saúde. Aqui fazem exames em casa quando é preciso. Foi aqui que fiz todo o meu pré-natal. Até ultrassom fiz com o SAS Brasil. O agente de saúde passa na nossa casa, conversa, escuta, se importa.
Aqui você come peixe fresco, lagosta fresca, comida que vem do mar.
Os vizinhos colhem manga do pé e nos dão com carinho, tudo e genuíno.
Aqui o barulho não é de cidade. O som que preenche os dias é o das folhas dos coqueiros, das cigarras, das galinhas, dos pássaros, dos cachorros e dos gatos.
Agora estamos fazendo um teste, filho. Queremos ver como você se adapta a esse sonho que eu chamo de vida real. Um lugar onde a natureza pode fortalecer o seu corpo, a sua respiração e a sua imunidade.
E eu sonho que logo mais você possa tirar esse cateter.
E onde eu espero que você possa simplesmente ser criança.
Eu te amo meu Pocoio.
Mãe