Olá, filho.
Ontem foi mais um dia carregado de emoções.
Às 4h da manhã, soube que a pessoa que nos ajuda durante o dia não viria, doente novamente.
Já vai fazer uma semana e, mesmo adorando cuidar de ti, isso está nos deixando exaustos.
Às 5h, recebi a resposta do órgão que gere o nosso conflito com o seguro. Uma resposta que lhe dá razão.
Em resumo, a ANS, mediadora, diz-nos que o seguro está nos seus direitos.
Classificou-te em Homecare, e não em hospitalização domiciliária quando saíste do hospital.
E na lei brasileira, o homecare não é uma obrigação de cobertura.
Mesmo quando especialistas (pneumo, neuro… e outros 10) atestam riscos importantes, incluindo risco de morte. Pois bem… Eles não se importam!
Parabéns, sistema de saúde brasileiro!
O meu primeiro sentimento… não vou descrevê-lo, tamanha foi a violência.
Depois refleti.
E perguntei-me: quais são os meus valores?
Nasci num país onde a saúde é gerida pelo Estado. Pagamos quase 50% de impostos. O sistema está a desmoronar-se, mas mesmo assim não deixamos as pessoas agonizar sem cuidados.
Para mim isso é senso comum, mas é apenas o molde no qual nasci. O senso comum é muito subjetivo e fortemente influenciado pelo contexto no qual crescemos.
Escolhi instalar-me noutro país.
Escolhi uma seguradora local, a mais vendida do país como garantia de segurança.
Escolhi confiar nas leis do país.
Escolhi pagar os meus impostos aqui.
E este país, e estas empresas, estão a fazer-me de parvo.
Então vou fazer o que ensino.
Assumir as minhas responsabilidades. Colocar-nos em segurança. Lutar. E ganhar a nossa liberdade.
Não vou esperar que outra pessoa faça isso por nós.
O meu maior erro não foi ter-me instalado no Brasil.
O meu maior erro foi não ter contratado um seguro internacional, baseado em regras internacionais.
Em vez disso, confiei numa seguradora local que possui toda a cadeia: seguradora, imagiologia, laboratórios, ambulâncias, homecare.
Uma empresa que concentra tudo, num país onde as leis não protegem os pacientes.
(ou melhor, apoia quem as paga)
Obviamente que termina assim.
É o lado podre do capitalismo.
Aquele que permite aos dirigentes serem listados na Forbes enquanto famílias lutam para respirar.
Não tenho nada contra ganhar dinheiro. Sou empresário e ganho eu próprio.
Mas nunca vou entender que se possa fazê-lo às custas da saúde de pacientes, de crianças e muito menos do meu filho.
E lutarei até ao meu último segundo se for preciso!
Com a minha cultura francesa, tenho dificuldade em entender por que as pessoas aqui não se revoltam.
Lutam por droga, mas não por direitos fundamentais.
Mistério da vida?!
Mas não faz mal, do nosso lado vamos continuar a desenrolar o plano.
Bom, voltemos a ti, filho.
Tossas cada vez mais.
Tivemos de recomeçar os tratamentos de urgência, como no hospital.
E temos medo de que esta estranha síndrome mão-pé-boca que apanhaste se transforme numa coisa nada boa para os teus pulmões.
A boa notícia é que reages muito bem a estes tratamentos e depois parece que nunca estiveste doente, tão limpa fica a tua respiração. O que nos deixa na dúvida.
Não sabemos se tens mais refluxo e isso cria broncospasmos, ou se é este tipo de estado gripal que irritou todo o sistema? Da mesma forma, continuamos a desenrolar o plano esperando que melhore.
Eu amo você
Pai