Olá, filho,
Hoje, vou começar contando uma história para você.
É a história de um homem que caminha em uma praia.
Ele está cansado.
Ele sabe que precisa ir até o fim, em algum lugar, mas a praia parece infinita.
O vento é muito forte. Ele assobia nos ouvidos. A areia queima os olhos e os faz lacrimejar.
Cada passo exige um esforço enorme.
Ele poderia parar. Ele poderia dar meia-volta.
Mas ele sabe que, se recuar agora, nunca mais avançará.
E, além disso, ele já avançou tanto.
Então ele continua, mesmo que seja difícil, mesmo que o vento empurre seu rosto para o chão.
E, no fundo, ele sabe uma coisa essencial. Ele não está sozinho.
Há pessoas que o observam, que o apoiam, mesmo de longe.
E ele sabe, acima de tudo, que um homem cansado ainda pode ir muito longe.
O vento não durará para sempre.
Um dia, avançar será mais simples.
Então ele continua.
E ele sente os olhares benevolentes que o ajudam a se manter de pé.
E ele sabe que vai conseguir.
Essa história foi o psicólogo quem me contou na quarta-feira à noite.
Porque, na quarta-feira de manhã, para nós, o vento soprava muito forte.
Muita tensão. Muitas contradições.
Seis meses de estresse nas pernas.
E o fato de que, no fim das contas, precisamos pedir doações…
Um elástico muito esticado acaba arrebentando.
Nada de grave, mas nunca é agradável.
O que posso te dizer, filhão, é que nunca se deve ter vergonha de pedir ajuda.
Durante muito tempo, pensei que os psicólogos eram para pessoas quebradas.
Posso te dizer uma coisa.
Somos todos um pouco quebrados.
E, às vezes, faz bem juntar os pedaços com alguém que sabe como fazer isso.
Esse, com sua técnica EMDR, realmente muda algo.
(Obrigado novamente à pessoa que nos recomendou)
Na quarta-feira, a pediatra paliativista também deveria ter vindo.
E, a propósito, paliativo não significa que vamos morrer.
Paliativo significa, em latim: aliviar.
(A primeira vez que me disseram essa palavra, pensei que era o fim.)
E a boa notícia é que esses pediatras são muito competentes.
No fim das contas, ela veio ontem de manhã.
Ela ficou pelo menos três horas em casa e observou tudo.
Segundo ela, é muito provável que suas crises de choro estejam ligadas a traumas do hospital que estão voltando.
Ela te receitou melatonina para te ajudar a dormir à noite.
Esta noite, não funcionou. Você está acordado desde 1h da manhã. Mas é normal, leva tempo.
Ela também quer refazer exames de sangue, principalmente o ACTH, que estava anormal, para ver se não se trata de uma anomalia temporária.
Ela pediu outras análises também, mas não me lembro mais de tudo.
Além disso, com sua mãe, lançamos uma campanha de doações.
E, honestamente, não é simples.
Nos ensinaram que nunca pedimos sem dar.
Então, sim, isso nos expõe.
Estamos aprendendo…
Não é confortável para nós.
Mas, objetivamente, as contas estão diminuindo rapidamente, os trâmites levam tempo, é preciso manter esse ritmo e é preciso aguentar a longo prazo.
Essas doações vão nos ajudar a passar pela onda.
E, se tudo correr como previsto, devemos estabilizar.
De qualquer forma, Gabriel, você está cercado por muitos anjos da guarda benevolentes.
Mesmo que você ainda não tenha podido conhecê-los.
Eles estão aí.
Eles nos acompanharam na UTI, enviaram suas mensagens de amor para nos apoiar, sua energia para te manter agarrado à vida, suas músicas para te distrair, seus vídeos para te mostrar o que é a vida e te dar a força para sair do hospital.
E agora, suas doações para te ajudar a receber os cuidados que você merece e que o seguro se recusa a cobrir.
Obrigado a todos os seus anjos da guarda.
A história desse homem na praia é uma bela metáfora.
Ela lembra que nunca devemos baixar os braços.
E você, filhão, é o exemplo perfeito disso.
Você não nasceu nas praias do Ceará à toa 😉
Eu te amo.
Pai
PS: Um dia, você vai subir contra o vento com uma vela. Você vai ver, vai ainda mais rápido!